Geraldo Zahran diz que existem mecanismos que funcionam independente do mandatário

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No fim de outubro, manifestantes pró e contra o republicano Donald Trump entraram em confronto na Avenida Paulista, em São Paulo, e mostraram que o clima bélico instaurado na eleição presidencial nos Estados Unidos atravessou o continente. Mas haveria diferença para o Brasil se o magnata ou sua rival, a democrata Hillary Clinton, tivessem vencido a votação desta terça-feira (8)?

Para o professor Geraldo Zahran, coordenador do Opeu (Observatório Político dos Estados Unidos), não. Segundo ele, existem mecanismos das relações bilaterais que caminham independentemente de quem for o inquilino da Casa Branca ou até mesmo do Palácio do Planalto.

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— Na forma de lidar com o país, pouca coisa seria diferente. Os dois conhecem o Brasil. Hillary já esteve aqui com Bill Clinton, como secretária de Estado, recebeu Dilma, tem contatos aqui, é entusiasta da relação com o Brasil e de mecanismos multilaterais de maneira geral. Trump também conhece o país, tem investimentos no Rio.

Além disso, o país deve continuar tendo uma importância apenas marginal para a política externa norte-americana.

— Somos um tema que aparece com alguma questão hemisférica ou multilateral, mas não somos prioridade — e nem precisamos ser.

Contudo, se o Brasil não será afetado diretamente pelo resultado da eleição nos EUA, o país pode sofrer os impactos indiretos de um aumento da tensão na geopolítica mundial com Donald Trump na Casa Branca.

“Acho que o terceiro mundo todo sofrerá os impactos porque Trump coloca interesses norte-americanos, os piores interesses norte-americanos, acima dos demais interesses da humanidade”, diz Rogério Baptistini, professor de sociologia da Universidade Mackenzie.

Zahran tem opinião semelhante, mas com explicações diferentes. Em sua visão, a vitória do magnata pode servir de combustível para propagar um discurso populista, xenófobo e racista no Brasil e no resto do mundo.

 

— Outro argumento é que se Trump colocasse em prática uma política de reduzir a presença na Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte), isso significaria um ambiente internacional muito menos estável e talvez afetasse o Brasil.

Ambos apontam a rival derrotada de Trump, Hillary Clinton, como uma entusiasta de órgãos multilaterais e da busca por consenso sobre os problemas comuns do mundo, até por ser alguém com sólida formação acadêmica e trajetória na política — embora isso não tenha impedido críticas a seu trabalho como secretária de Estado (2009-2013), principalmente na gestão da crise na Líbia.

“Trump inviabilizará isso, sobretudo nos graves problemas ligados ao extremismo religioso. Um sujeito como ele trabalha em uma lógica de eliminação do inimigo. A política para ele é guerra. E uma pessoa como Hillary, já experimentada no mundo da política, certamente caminharia no sentido de facilitar a construção de pontes”, acrescenta Baptistini.

Imigração

A vitória do candidato republicano também poderá ser determinante para o futuro de imigrantes brasileiros nos Estados Unidos, principalmente os ilegais. Um dos pilares da campanha do bilionário foi um discurso radicalmente contrário à imigração, que inclui as promessas de construir um muro na fronteira com o México e barrar a entrada de muçulmanos no país.

Além disso, ele já declarou que a criação de uma força-tarefa para expulsar estrangeiros clandestinos seria uma de suas primeiras medidas na Casa Branca. O MPI (Migration Policy Institute), think tank especializado no tema e baseado em Washington, estima que há entre 67 mil e 112 mil brasileiros vivendo de maneira irregular em solo norte-americano.

“Essa plataforma agressiva contra a imigração que ele tem adotado pode gerar algum problema para as comunidades brasileiras nos EUA”, conclui Zahran.

Fonte: Ansa

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