Cuba um ano após início do degelo com os EUA

size_810_16_9_cuba-euaDoze meses atrás, eram grandes a esperança e a euforia. No entanto, críticos acusam Havana de inação e endurecimento de velhas estruturas repressivas. O que mudou para a população da ilha caribenha no período?

Concessões sucessivas de Washington, maior entrincheiramento ideológico em Havana e um povo ansioso, que ainda não vê os benefícios anunciados: esse é o quadro geral em Cuba, um ano após a retomada das relações diplomáticas com os Estados Unidos.

A revista Convivencia, considerada a voz da sociedade civil no Estado insular, afirma em editorial que o nível de vida dos cubanos caiu a níveis alarmantes, comparáveis aos da crise denominada “Período Especial”, na década de 1990. A Organização das Nações Unidas envia uma forte crítica ao presidente Raúl Castro pela onda de mais 1.500 detenções de oposicionistas, somente neste mês.

Para o legendário cantor e autor cubano Pablo Milanés, tudo está pior do que antes, e a única coisa que os cidadãos de Cuba possuem é a esperança. O escritor Leonardo Padura Fuentes cobra que os acordos estabelecidos no papel cheguem até o povo. Já Carlos Alberto Montaner, o jornalista cubano mais lido no mundo, fala da imposição de um “capitalismo militar de Estado”, no qual o castrismo assume o controle das 2.500 maiores empresas do país.

Mais internet – porém mais repressão

Inegável é o aumento do número de visitantes americanos à ilha caribenha, representando mais divisas para o governo e para os operadores turísticos estrangeiros, como também para o setor da população vinculado aos serviços de turismo.

Impossível de contabilizar é a influência sobre o trabalho autônomo, formal e informal, devido à grande qualidade de negócios abertos e liquidados nestes 12 meses, sob o peso dos impostos elevados e das rígidas normas decretadas por Havana.

Nova é a possibilidade que têm agora os cubanos de se conectar via internet, através das ofertas públicas de wi-fi – embora ainda insuficientes e de péssima qualidade. Estabeleceram-se, de fato, intercâmbios culturais, acadêmicos e políticos entre a ilha e a diáspora – sem que se possa falar de uma comunicação e troca livres e sistemáticas.

Também se vê como avanço o crescimento da sociedade civil independente: embora sua aposta nos métodos pacíficos seja reprimida pelo governo com violência ainda maior do que em 2014. Ainda assim, nota-se uma eclosão espontânea do debate público pelas redes sociais, em diferentes setores da sociedade cubana.

Monarquia absoluta – ou simples prisão

Das reformas econômicas propostas por Raúl Castro em 2011 – as assim chamadas “313 diretrizes” –, só foi cumprida uma dezena. A mais visível entre elas é a promulgação da Lei de Investimentos Estrangeiros, a qual não atraiu os capitais previstos, apesar da enorme campanha internacional promovida por Havana.
Além das concessões econômicas e financeiras decretadas pelo chefe de Estado americano, Barack Obama, outra iniciativa estrangeira promissora é o perdão das dúvidas cubanas para com seus principais credores do Clube de Paris, num total de 8,5 bilhões de dólares. Isso suspenderia os obstáculos para que o governo cumpra dois passos essenciais: a eliminação da dualidade monetária e a reforma das empresas estatais.

Uma questão central ainda em aberto é o abismo crescente entre os que têm cada vez menos – mais de 78% da população, segundo diversas análises – e os “novos ricos” – os poucos que têm acesso aos negócios estatais com investimentos estrangeiros ou a pequenos negócios de investimento familiar.

Raúl Castro segue empenhado em gerir a ilha a seu bel prazer. Exemplos disso são a recente ordem de expropriação de 20 casas e dois restaurantes nos arredores de sua residência em Havana; a irracional política de impostos; e as batidas dos inspetores estatais contra os negócios particulares mais prósperos.

A mensagem para os investidores é clara: a incerteza vai estar sempre pairando como uma espada sobre suas cabeças. Nas palavras do analista econômico Jorge A. Sanguinety: “Cuba segue sendo administrada como uma monarquia absoluta ou primitiva (ou talvez pior: como um simples presídio), quando, de um golpe de pena, sem qualquer restrição, o chefe de governo pode arbitrariamente tomar medidas tão radicais quanto a desapropriação de moradias.”

Rumo à terra paradisíaca

Enquetes de instituições pró-governo e da sociedade civil indicam que pelo menos 70% dos cubanos se sentem decepcionados com mais de 50 anos de políticas econômicas erradas, sustentadas pelo governo. Além disso, o maior sonho dos jovens é emigrar.

A essa decepção, à imobilidade manifesta de Castro diante das aberturas de Obama, e à existência da americana Lei de Ajuste Cubano, de 1966, que garante residência, no prazo de um ano, aos cubanos chegados ilegalmente aos EUA, é que se deve o quarto maior êxodo em massa da história da Revolução Cubana.

Mais de 75 mil cubanos aportaram nos Estados Unidos em cerca de um ano. E a expectativa é que essa cifra cresça, assim que se resolva a terrível situação de 20 mil refugiados do país, aguardando em Panamá, Costa Rica e México para seguirem viagem até a paradisíaca terra prometida – a qual, para os cubanos, a despeito da propaganda castrista, continua sendo os Estados Unidos.

 

Fonte: Deutsche Welle

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