Rússia diz que interrompeu bombardeios na Síria

Entrou em vigor o acordo de cessar-fogo alcançado com os Estados Unidos.
Grupos rebeldes aceitaram trégua, mas dizem não confiar em al Assad.

siriaA Rússia garantiu neste sábado (27) que suas Forças Aéreas suspenderam totalmente os bombardeios na Síria desde a meia-noite (19h em Brasília), quando entrou em vigor o acordo de cessar-fogo alcançado com os Estados Unidos, segundo a agência Efe.

“Levando em conta a entrada em vigor de uma resolução do Conselho de Segurança da ONU em apoio ao acordo de cessar-fogo entre Rússia e EUA, e para evitar qualquer possível erro ao realizar bombardeios, os caças-bombardeiros russos, incluídos os de longo alcance, não estão efetuando saídas sobre o território da Síria hoje, 27 de fevereiro”, disse o chefe da direção principal do Estado-Maior, Sergey Rudskoi.

O general Sergey Kuralenko, chefe do Estado-Maior russo para a trégua na base de Khmeimim, indicou que a cessação total das ações russas “não significa que os terroristas do Estado Islâmico ou da Frente al Nusra possam respirar tranquilamente”. “Controlamos perfeitamente a situação em toda a Síria”, acrescentou.

O representante do Ministério da Defesa indicou que “neste momento, as ações militares na Síria foram interrompidas em 34 cidades” da província de Hama. E acrescentou que na província de Homs também alcançaram acordos de cessação de hostilidades com comandantes de campo que controlam as distintas cidades.

O responsável militar disse que estão controlando o cumprimento da trégua no território sírio com a ajuda de 70 aviões não pilotados.

Exatamente no primeiro minuto de sábado, as armas silenciaram nos subúrbios de Damasco e na cidade de Aleppo, no norte do país, observou a AFP. A população saiu às ruas para aproveitar o momento excepcional de calma.

Segundo o OSDH, a calma reinava nas províncias de Homs (centro), Damasco e na região de Aleppo (norte). Em todas elas há rebeldes e tropas do regime.

De acordo ainda com o OSDH, ocorreram apenas confrontos esporádicos entre as forças do regime e os jihadistas do grupo Estado Islâmico e da Frente Al-Nosra.

Os jihadistas também enfrentaram os curdos na província de Raqa (norte).

A trégua, apoiada por uma resolução do Conselho de Segurança da ONU, é a primeira deste tipo em cinco anos de guerra, que já deixou 270 mil mortos.

O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, advertiu Moscou e Damasco que o “mundo está observando” o respeito da trégua.

Mas, durante a trégua, o regime sírio, seu aliado russo e a coalizão internacional liderada pelos Estados Unidos poderão atacar o Estado Islâmico e a Frente Al-Nosra, que ocupam mais metade da Síria.

O chefe da Frente Al-Nosra, Mohamad al Kholani, convocou os opositores de Assad a rejeitar o cessar-fogo e a intensificar os ataques contra o regime. “Cuidado com a armadilha do Ocidente e dos Estados Unidos”.

Em Moscou, o presidente russo, Vladimir Putin, prometeu prosseguir com sua “luta implacável” contra o EI, a Frente Al-Nosra e outras “organizações terroristas” excluídas da trégua.

A Turquia, na fronteira com a Síria e que entrou recentemente no conflito, declarou estar “seriamente preocupada” com a viabilidade do cessar-fogo. A aviação turca bombardeira as forças curdas sírias e considera que não está comprometida com a trégua.

Rebeldes
Alguns dos grupos rebeldes que aceitaram a trégua na Síria afirmam que sua decisão de respeitá-la é firme, mas permanecem alerta porque não confiam nas forças do regime de Bashar al-Assad.

Desde a província de Aleppo, o porta-voz do Exército dos Revolucionários, Ahmed Taha, afirmou à Agência Efe por telefone que sua organização está comprometida com o cumprimento do cessar-fogo.

“Desde o início da trégua não foram disparados projéteis do tipo terra-terra”, indicou Taha, que, no entanto, apontou que seus combatentes permanecem em suas posições porque “para onde iriam?”.

O porta-voz rebelde ressaltou que o nível de alerta é máximo e que, entre outras medidas, seu grupo ergueu barreiras e escavou trincheiras para se proteger de qualquer possível agressão.”Não há ninguém que confie em Bashar al-Assad”, afirmou Taha.

O Exército dos Revolucionários é uma das organizações armadas que operam no norte da província de Aleppo e costuma colaborar com as Forças da Síria Democrática (FSD), uma coalizão armada curdo-árabe que recebe o apoio dos EUA e que aceitou a cessação de hostilidades.

Na opinião de Taha, “é impossível que a trégua funcione se não for assinada pela Frente al Nusra”, filial síria da Al Qaeda.

“Seus combatentes se escondem entre a população e as pessoas têm medo deles”, destacou.

A Frente al Nusra e o grupo Estado Islâmico (EI) foram excluídos do cessar-fogo, que foi aprovado tanto pelo governo de Damasco como pela Comissão Suprema para as Negociações (CSN), a mais importante coalizão da oposição síria.

Por sua vez, o comandante da brigada Fursan al Huran, Abu Akram al Hurani, cujo grupo opera nos arredores de Damasco, Aleppo e no sul do país, disse à Efe pela internet que sua organização se comprometeu também com o cumprimento do cessar-fogo e não lançará ataques.

Mesmo assim, “estaremos de olho em qualquer violação por parte do regime para registrá-la e demonstrar que não respeita a legalidade”, detalhou Hurani.

O cessar-fogo entrou em vigor à meia-noite (de Damasco) e desde então tão só houve combates em áreas onde estão presentes o EI e a Frente al Nusra.

A CSN confirmou ontem em comunicado que 97 facções armadas moderadas tinham aceitado a trégua, mas não informou seus nomes.

Confrontos
A Síria amanheceu neste sábado sem bombardeios no primeiro dia do cessar-fogo entre o regime de Bashar al Assad e a oposição, e apenas foram registrados combates em áreas com a presença da Frente al Nusra, grupo jihadistas ligado à Al Qaeda, e do Estado Islâmico (EI).

O Observatório Sírio de Direitos Humanos (OSDH) detalhou que há combates entre as forças governamentais e o EI na área de Khanaser, onde está o caminho que liga esta cidade com Aleppo, no norte do país, está interrompido.

Também há confrontos entre soldados leais ao governo e várias organizações, entre as quais a Frente al Nusra, nas regiões de Jabal al Akrad e Jabal Turcoman, no norte da província litorânea de Latakia.

Nesse local, também atuam outros grupos como o Movimento Islâmico dos Livres de Sham e o Exército Islâmico do Turquestão.

Os também chamados Livres de Sham fazem parte da Comissão Suprema para as Negociações (CSN), a principal aliança de oposição, que aceitou a trégua.

No entanto, não se sabia se essa organização armada cumpriria com o cessar-fogo por seus vínculos estreitos com a Frente al Nusra, com quem costuma atuar no terreno.

Por outro lado, na província central de Hama, um carro-bomba do EI explodiu contra um posto de controle de regime na entrada da localidade de Salmiya, onde dois efetivos governamentais morreram.

Nessa mesma região, as Forças de Defesa Nacional, milícias pró-regime, enfrentam desde a noite de ontem combatentes do EI nos vilarejos de Mafkar e Al Tiba.

Além disso, em Tel Abiad, na fronteira entre a Turquia e a província síria de Al Raqqa, também há combates entre o EI e as Unidades de Proteção do Povo, milícias curdo-sírias.

O cessar-fogo, estipulado por Rússia e EUA, entrou em vigor no território sírio após a meia-noite de sexta-feira (horário local), depois que o governo em Damasco e a CSN aceitaram interromper as hostilidades.

Novas negociações
A Comissão Suprema para as Negociações (CSN), a principal aliança opositora síria, voltará às negociações de paz em Genebra, que está marcada para 7 de março, se o regime e seus aliados respeitarem o cessar-fogo, disse neste sábado à agência Efe seu porta-voz, Riad Agha.

Agha declarou que a delegação opositora está disposta a voltar ao diálogo indireto com representantes governamentais na cidade suíça, apoiado pela ONU, “sempre e quando a trégua for respeitada”.

“Nós estamos comprometidos com a cessação das hostilidades e esperamos que isto permita o cumprimento dos pontos do acordo (entre Rússia e EUA para o cessar-fogo) referentes à entrada de ajuda humanitária, a libertação de prisioneiros, e se houver sucesso, que os deslocados possam voltar para suas casas”, apontou.

O Conselho de Segurança da ONU exigiu ontem à noite o respeito à cessação da violência na Síria, pouco antes da entrada em vigor, às 0h (19h de sexta-feira em Brasília), e anunciou uma nova rodada de negociações de paz entre o governo e a oposição para 7 de março.

Por outro lado, Agha revelou que os dois principais grupos islâmicos da oposição armada, o Exército do Islã e o Movimento Islâmico dos Livres de Sham, aceitaram a trégua.

“Tanto o Exército do Islã como o Movimento Islâmico dos Livres de Sham aceitaram cumpriro cessar-fogo, da mesma forma que as brigadas do Exército Livre Sírio (ELS) que fazem parte da CSN”, ressaltou.

A CSN emitiu ontem um comunicado que afirmava que 97 grupos armados tinham aprovado a cessação das hostilidades, mas não dava seus nomes, e existiam dúvidas sobre a aceitação dessas duas organizações.

Agha lembrou que só estão fora do cessar-fogo a Frente al Nusra, filial síria da Al Qaeda, e o Estado Islâmico, por isso que nas zonas onde eles estão presentes segue a haver combates.

O porta-voz garantiu que a única área onde a trégua não está sendo aplicada e não há nenhuma presença dessas duas organizações jihadistas é a cidade de Daraya, ao sudoeste de Damasco, onde as autoridades acreditam que há combatentes da Frente al Nusra.

Agha acrescentou que a CSN está coordenando com a ONU, “já que é necessário que haja uma parte mediadora”, para a implementação da cessação das hostilidades, e não diretamente com EUA e Rússia.

 

Fonte: G1

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