A sigla da prevenção contra a sigla do medo: passados 37 anos desde o registro do primeiro caso de Aids no Brasil, onde atualmente calcula-se que cerca de 830 mil vivam com o HIV, uma nova ferramenta surge como mais uma esperança de barrar novas infecções. Hoje, dia mundial do combate à doença, o governo federal apresentará nova campanha contra o vírus e anuncia a chegada de medicamento que promete ser eficaz para evitar o contágio. A Prep (sigla para profilaxia pré-exposição), como é popularmente conhecido o Truvada, será distribuída em postos de saúde do país para um público estimado em 7 mil pessoas. Porém, junto da esperança vem uma preocupação: embora seja mais uma arma no arsenal de combate à epidemia, há apreensão quanto à possibilidade de a novidade levar a um relaxamento no uso de preservativos e, consequentemente, à disseminação de outras infecções sexualmente transmissíveis (ISTs).
Em BH, a Prep será ofertada em dois locais: o Centro de Tratamento Orestes Diniz e o Hospital Eduardo de Menezes. Tatiani Fereguetti, coordenadora de Saúde Sexual e Atenção às IST’s, Aids e Hepatites Virais da Secretaria Municipal de Saúde, explica que será feita uma triagem com as pessoas que se apresentarem para o tratamento. Receberão o medicamento aqueles que atenderem aos critérios entre as populações consideradas mais vulneráveis. “São elegíveis homens que fazem sexo com homens, profissionais do sexo e pessoas com parceria com sorodiscordantes (casais em que apenas um dos integrantes é portador do HIV)”, conta.
A combinação de drogas que reduzem as chances de contrair o vírus é considerada um avanço no combate à epidemia, que vem avançando no país sobretudo entre jovens do sexo masculino. Atualmente, o Brasil conta com algumas armas nessa batalha: além dos preservativos, postos de saúde e centros de tratamento que disponibilizam os exames para diagnósticos de ISTs e a PEP (profilaxia pós-exposição), administrada a pessoas que ficaram expostas ao vírus.
Apesar do arsenal terapêutico, a orientação mais eficaz na prevenção do contágio pelo HIV continua sendo o uso do preservativo. Porém, de acordo com pesquisa do Ministério da Saúde, pouco mais da metade da população sexualmente ativa diz usar camisinha em todas as relações sexuais, mesmo sabendo dos riscos. Tatiani Fereguetti conta que a procura pelos testes para detecção do contágio aumentou principalmente na faixa etária mais jovem, dos 15 aos 29 anos. Segundo ela a mudança nas formas de relacionamento facilita a exposição ao vírus. “O jovem hoje não tem acesso à educação sexual. A rede de relacionamentos é muito facilitada, principalmente pelas mídias sociais. O preservativo não é pauta principal entre os jovens”, explica.
Por razões como essa, o infectologista Estevão Urbano enfatiza a importância da educação no uso do Truvada. “A distribuição tem que ser feita com cautela. Muitas pessoas vão parar de usar o preservativo, mas elas têm que saber que estão se expondo a outras doenças. O medicamento agrega valor ao tratamento, mas é preciso que se entenda que as pessoas não podem se descuidar. Além disso, se não tomarem o remédio de maneira correta, a exposição ao vírus continua”, adverte.
Eficácia
O primeiro estudo com o Truvada teve início há uma década. A pesquisa recrutou 2.500 pessoas classificadas com alto risco de infecção pelo HIV. Metade delas recebeu os comprimidos com o princípio ativo, enquanto outra parte tomou placebo. De acordo com os resultados, os indivíduos que usaram o medicamento tiveram taxa 44% menor de infecção pelo HIV.
Estima-se que hoje 150 mil pessoas usem o medicamento no mundo, a maior parte delas nos Estados Unidos. Lá, o composto foi aprovado em 2012 e seu uso cresce a cada ano. Um exemplo do impacto desse tipo de estratégia é a cidade de São Francisco, na Califórnia. Após a adoção do Truvada, o número de novos casos caiu quase 20% de 2013 para 2014.
No Brasil, o Ministério da Saúde estuda desde 2014 incorporar o Truvada à política pública de distribuição de medicamentos. Pesquisa com 500 voluntários de São Paulo, Rio de Janeiro e Porto Alegre, foi feita para tentar entender se os brasileiros teriam disciplina para usar o medicamento todos os dias e se não abandonariam o preservativo, por já se sentirem seguros com o remédio.
Esse é o pior dos pesadelos de especialistas que são contra esse tipo de prevenção. Há a possibilidade de as pessoas apostarem apenas no comprimido como prevenção, em vez de usá-lo como complemento, e se exporem ao vírus e a outras doenças por abandonar a proteção do preservativo. Porém, os resultados preliminares do estudo sugerem que tomar o Truvada não afetou a disposição dos participantes para usar preservativos.

Entre a PEP e a Prep
A PEP (profilaxia pós-exposição) está disponível no SUS desde 2010, para casos de relação sexual de risco desprotegida. A medicação age impedindo que o vírus se estabeleça no organismo, daí a importância de se iniciar o tratamento o mais rápido possível. A recomendação é que seja administrada em até 72 horas, sendo o tratamento mais eficaz se iniciado nas duas primeiras horas após a exposição ao HIV.
Há indicação para pessoas que podem ter tido contato com o vírus por violência sexual, relação sexual de risco desprotegida (sem o uso de camisinha ou com rompimento da camisinha) ou acidente ocupacional (com instrumentos perfurocortantes ou em contato direto com material biológico). O tratamento deve ser seguido por 28 dias. Geralmente, consiste em uma pílula diária, mas pode ser preciso tomar mais de um medicamento por dia.
Já a Prep (profilaxia pré-exposição) age bloqueano a entrada do vírus HIV no DNA das células de defesa do organismo, impedindo a replicação do vírus. A indicação é de um comprimido, uma vez ao dia, que deve ser tomado regularmente, sem interrupções. Assim que se inicia o cosumo do comprimido diário, o paciente deve esperar sete dias até se considerar protegido. Esse é o tempo médio para se atingirem os níveis sanguíneos do medicamento necessários para evitar a infeção pelo HIV.

Fonte: Correio Braziliense

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