O Ministério Público de Rondônia (MP-RO) entrou com recurso contra a decisão que absolveu Ismael José da Silva, acusado de matar a namorada Jéssica Moreira Hernandes, de 17 anos, em um suposto ‘teste de fidelidade’. A garota foi morta com 13 facadas em abril deste ano em Cerejeiras (RO). A apelação foi apresentada na segunda-feira (11). O primo de Ismael, Diego de Sá Parente, também é acusado pela morte e foi pronunciado a ser julgado pelo Tribunal do Júri.

O recurso apresentado é contra a decisão do juiz Jaires Taves Barreto, da 2ª Vara Criminal do município. Barreto concluiu, embasado em documentos, testemunhas e imagens de câmeras de segurança, que Ismael estava no local de trabalho, enquanto a namorada era morta. Com isso, avaliou que Ismael não participou do crime.

Já o promotor Marcus Alexandre de Oliveira Rodrigues espera que a decisão seja reformada pelo TJ-RO, e que Ismael, assim como Diego, seja julgado pelo júri popular.

“O Ministério Público tem muita convicção, e tem certeza de que Ismael participou da morte; ele matou Jéssica. E essa certeza é com base em provas do processo. O Ministério Público respeita a decisão judicial, mas entende contrariamente ao que foi decidido, em relação a Ismael, razão pela qual recorreu, apresentou todas as provas, os seus motivos jurídicos, fáticos e agora, aguarda que o Tribunal de Justiça reforme a decisão”, enfatiza.

O promotor ressalta que há provas que coloca Ismael na cena do crime e que as planilhas do sistema dos computadores da Circunscrição Regional de Trânsito (Ciretran), não são provas satisfatórias de que Ismael estava no trabalho, enquanto Jéssica estava sendo morta.

“No que depender do Ministério Público, ele vai a júri. O Ministério Público sustentará sua acusação contra ele, no plenário, pelo homicídio com quatro qualificadoras, incluindo feminicídio da adolescente e pela ocultação de cadáver”, conclui Rodrigues.

Defesa de Ismael

A advogada Shara Eugênio de Souza afirma que o recurso do MP-RO já era esperado, em virtude do posicionamento do órgão ministerial durante as audiências de instrução. “Estamos preparados. Sei que diante das provas, será mantida a sentença de primeiro grau, que foi muito bem fundamentada e concluiu que meu cliente é inocente”, ressalta.

A defesa ainda salienta que não há provas que coloque Ismael na cena do crime.

“Ismael trabalhou de forma normal. Chegou era aproximadamente 7h23, e saiu era 11h16. Tem câmeras de segurança no processo que mostram o horário; há conversa de Ismael com a mãe de Jéssica, e também o veículo que transportou o corpo de Jéssica para o local onde foi desovado, às 9h32, ou seja, quando Ismael saiu do local de trabalho, a namorada já havia sido morta”, destaca.

Shara ainda salienta que Ismael sempre manteve a mesma versão dos fatos, ao contrário do primo dele, Diego, que teria mudado os depoimentos.

“Ismael continua alegando inocência e tem sofrido muito; não imaginava passar por uma situação dessas. Estou preparada, desde o início, guiada por Deus, em luta por um inocente”, enfatiza.

Defesa de Diego

O juízo considerou que, embora Diego negue a prática de homicídio, os indícios de autoria são fortes contra ele. Depois de analisar as provas do processo, o juiz concluiu que existe um conjunto probatório para atribuir a Diego indícios suficientes e, com isso, ser julgado pelo Tribunal do Júri.

Contudo, o advogado Fernando Milani e Silva afirma que também irá recorrer da decisão. “A sentença, no nosso modesto entendimento, está absolutamente equivocada. A todo o momento, desde o princípio, Diego afirma que efetivamente não cometeu o homicídio. Ele não matou, e deve responder e responderá pelos atos que praticou”, ressalta.

Silva ainda afirma que Diego não tinha motivos para matar Jéssica. “Infelizmente, ele foi tolo. E por ser tolo, ele foi usado. E por ser usado, ele possivelmente poderá pagar por algo que não fez”, diz.

A defesa ainda salienta, que a versão de que a bolsa foi encontrada na caixa de gordura da residência de Diego, não é razoável. Ele questiona que, se Diego jogou a bicicleta e chinelos da vítima, bem como camisetas sujas de sangue, em um poço, porque iria levar somente o acessório para casa.

“A verdade foi manipulada de forma muito inteligente por quem praticou o ato. Nós entendemos que houve premeditação, partindo da premissa que os fatos narrados pelo Diego sejam verdadeiros. Eu, inclusive, estou trabalhando nesse processo gratuitamente, porque eu tenho convicção de que ele é inocente”, enfatiza.

Relembre o caso

Jéssica saiu de casa de bicicleta no dia 20 de abril deste ano . Ela ficou desaparecida por quatro dias e a família mobilizou a cidade em busca de informações. A população fez diversas postagens e compartilhamentos em redes sociais em busca da jovem.

A garota foi encontrada morta no dia 24 do mesmo mês, na Linha 4, zona rural de Cerejeiras. No dia seguinte, o namorado Ismael e o primo dele, Diego, foram presos temporariamente por envolvimento no crime. A mulher de Diego também chegou a ser presa, mas foi liberada por falta de provas.

Diego contou à Polícia Civil que Ismael era um namorado extremamente ciumento, e estava desconfiado da infidelidade de Jéssica. Por conta disso, o chamou para fazerem um teste de fidelidade com a garota. Depois de organizarem o plano, Diego atraiu Jéssica para o local do crime sobre a argumentação de que possuía provas de uma suposta traição d e Ismael.

“Diego disse que Jéssica confessou que traiu Ismael, mas talvez ela tenha até mentido na ânsia de receber a informação dele. Alguma coisa que Jéssica falou despertou a ira de Ismael. Segundo Diego, após a confissão, Ismael perdeu o controle. Ele estava com um pedaço de ferro na mão, entrou na cozinha e falou : ‘então é isso’. Nisso a Jéssica vira, leva um golpe na cabeça e desmaia”, disse o delegado Rodrigo Spiça, em entrevista em abril.

Em seguida, segundo a versão de Diego, Ismael esfaqueou a namorada até a morte. Eles embalaram o corpo em uma lona e o colocaram na carroceria de uma caminhonete. Diego ficou responsável por limpar os vestígios de sangue da casa e por se livrar da bicicleta, enquanto Ismael escondeu o cadáver, a bolsa e o celular da vítima.

No mês de maio, o delegado pediu a prorrogação da prisão dos suspeitos, e a Justiça acatou o pedido, prorrogando a detenção por mais 30 dias. No início de junho, o celular de Jéssica foi encontrado na zona rural de Cerejeiras e entregue à polícia.

O delegado Rodrigo Spiça confirmou que o aparelho pertencia à vítima e o encaminhou para perícia.

Depois disso, Ismael e Diego foram indiciados por homicídio qualificado e ocultação de cadáver. Em julho, a advogada de Ismael, Shara Eugênio de Souza, declarou que a família de Jéssica acreditava na inocência do namorado. A mãe da adolescente confirmou a informação.

Testemunhas e réus foram ouvidas em duas audiências de instrução no mês de agosto, e depois MP-RO e defesas fizeram as alegações finais. A sentença, que absolveu Ismael e pronunciou Diego, foi proferida na última sexta-feira (8).


Fonte: G1

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