“Meu salário não diz respeito a ninguém”, disse Renata Vasconcellos, com ênfase na palavra NINGUÉM, em resposta a Bolsonaro — o fiasco da Globo na sabatina foi tão grande que jornalista teve que responder a candidato.

E Renata deu a resposta errada.

Os salários astronômicos do elenco da Globo — aqueles que são apresentadores, artistas, narradores, não o trabalhador comum — estão na origem do quase monopólio de audiência que a emissora alcançou.

Durante seus primeiros anos, ela desbancou a Tupi, que depois iria à falência, com salários muito maiores que pagava ao elenco, tão altos que não era possível competir — hoje, Bonner deve receber R$ 1 milhão, Renata Vasconcellos, R$ 300 mil.

Se contratasse estrelas com dinheiro lícito, ok. Mas a Globo o fez com recursos de uma ilegal parceria com o grupo Time-Life, controlado à época por um político ultra-conservador do Partido Republicano.

Era a Guerra Fria, e o grupo americano saiu distribuindo dinheiro na América do Sul para montar grandes grupos de comunicação.

Na Venezuela e no Brasil, tiveram êxito, embora, no Brasil, fosse vetado pela lei o capital estrangeiro em empresas de comunicação.

Roberto Marinho burlou a lei, como mostrou uma CPI realizada à época e está descrito no livro “A História Secreta da TV Globo”, de Daniel Herz, pesquisador vinculado à Universidade Federal de Santa Catarina, já falecido.

Durante a ditadura, era privilegiada pelas verbas do governo.

O jornalista Paulo Nogueira, fundador deste site, também tocou no tema em um artigo de fevereiro de 2016, ao contar que Armando Nogueira, ministro da Justiça de Geisel, considerava Roberto Marinho “o maior e mais constante amigo” do governo na imprensa.

Por isso, reivindicava mais concessões, conforme descrito no livro Dossiê Geisel.

O ministro das Telecomunicações, Quandt de Oliveira, não queria atender ao pedido.

Numa reunião com Geisel, Oliveira explicou os motivos. Diz o livro:

“Em 14-3-1978 ele mostrou que Roberto Marinho detinha diretamente, ou através de filhos ou prepostos, o controle societário de várias emissoras de TV (Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte, Brasília, Recife e Bauru), 11 estações de rádio em onda curta em diversas cidades do país, cinco estações de FM, duas estações em onda curta e uma em onda tropical.  A partir desse levantamento, considerou que (…) Roberto Marinho poderia chegar ao monopólio da opinião pública. Logo, não deveria receber novas concessões.”

Roberto Marinho foi a Golbery, homem forte de Geisel, e outros ministros. Falou do “constante apoio” que vinha dando ao governo. Alegou que a Globo promovia “assistência social”.

Nos anos 70, colocou o Jornal Nacional a serviço da propaganda do governo e mantinha programas destinados a enaltecer o regime e a doutrina do regime.

Na redemocratização, trocou o apoio a Tancredo Neves pela nomeação de Antônio Carlos Magalhães no Ministério das Comunicações e obteve, com isso, a NEC, empresa que praticamente tomou de Mário Garnero com a ajuda do governo.

Com Fernando Henrique Cardoso, manteve a jornalista Míriam Dutra — mãe de uma criança cuja paternidade atribuía ao então presidente — longe do Brasil, na maior parte do tempo recebendo sem trabalhar.

O que a Globo recebeu em troca? “Empréstimos do BNDES”, disse-me Miriam.

Nos governos de Lula e Dilma, não havia Miriam, NEC ou tortura como instrumento de poder, mas a Globo continuou tendo um tratamento diferenciado.

Quando Lula assumiu, estava quase quebrada, mas, como insinuou Antonio Palocci num depoimento que Moro cortou, houve uma operação para salvá-la. Não disse Globo, mas nem precisava.

Era a Globo que, endividada em dólar, estava em sérias dificuldades.

O governo petista cometeu o equívoco de imaginar que teria o apoio da Globo.

Não se deu conta de que os interesses da emissora não coincidem com os dos brasileiros em geral.

Deu no que deu.

 

Por Joaquim de Carvalho

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